A arte de ler

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Livro com páginas em formato de coração.

Acontece sempre em novembro a tradicional e reconhecida Feira do Livro de Porto Alegre, este ano na 63ª edição.  Com o tema “Tempo para ler, todo mundo tem”, toca de fato no calcanhar de Aquiles no que diz respeito ao cultivo da arte de ler, que parece ser quase nula entre nós brasileiros. Pesquisas recentes mostraram a grande dificuldade de nossos alunos cultivarem a arte da leitura, ainda mais se comparados aos estudantes de outros países. Para o vestibular e os diversos exames nacionais, que propiciam o acesso ao ensino superior, novamente a redação se torna sempre a grande vilã, porque, para se escrever bem, subentende-se o cultivo intenso da leitura.

Alguns anos atrás, uma pesquisa da Universidade Católica de Brasília apontou que 50% dos universitários não conseguiam entender o que liam. A pesquisa levou em conta o modo de estudar, o tempo de dedicação aos estudos, características sócios-culturais e formação dos estudantes. Como conclusão, a pesquisa apontou algumas características comuns da maioria dos estudantes que ingressam na universidade: não tem o hábito de estudo; aprendem o conteúdo de forma superficial; costumam estudar somente para as provas; são analfabetos funcionais. Num âmbito maior, outra pesquisa do IBOPE também sinalizou, alguns anos atrás, que apenas 25% da população brasileira consegue compreender o que lê.

Conforme citação no livro “Manual prático para um Estudante”, de Leonardo Agostini: “ler é mais do que decifrar palavras: é desvelar ideias por detrás delas. Se você se prender demasiadamente às palavras, pode não perceber a ironia que elas revelam; a pergunta subjacente; a mensagem subliminar, o sarcasmo disfarçado. ‘Naquilo que lemos, podemos encontrar muitas palavras e captar poucas ideias. É preciso, portanto, saber descobrir as ideias que estão por trás da massa das palavras. Em suma, o que importa em um texto são as ideias, não as palavras’ (Tierno, 2003). Encontrar ideias por detrás das palavras: eis um desafio que, para alguns estudantes, é uma tarefa intransponível. ‘Como entender e compreender o que li?’, penso que essa seja a pergunta que mais ouvi de meus estudantes. Ler consiste em conhecer, interpretar, decifrar e distinguir os aspectos mais importantes dos secundários e, ‘optando pelos mais representativos e sugestivos, utilizá-los como fonte de novas ideias e do saber, através dos processos de busca, assimilação, retenção, crítica, verificação e integração do conhecimento’ (Cf. Marconi; Lakatos, 2003)”.

Talvez, para não ficarmos unicamente numa leitura da realidade, com acento um tanto negativo ou pessimista sobre o hábito dos nossos estudantes e do povo brasileiro com a leitura, é bom colocar um tempero na arte da leitura. É preciso fazer a experiência prazerosa que toda a leitura esconde e depois revela. Creio que dá muito pano pra manga, como se diz na gíria, se, por exemplo, discutirmos filosoficamente se uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras. Milhões de imagens de todo tipo de situação temos a cada segundo hoje e ainda sim, muitas vezes, não conseguimos conhecer a realidade a fundo do que ela mostra. Em última análise, se conseguirmos avançar na dedicação de mais tempo para a leitura com certeza chegaremos à máxima dos gregos: “o verdadeiro sábio é aquele que sabe que nada sabe”. E aí está a motivação para avançar sempre mais.