O jogo da vida

O Dom da Maternidade
11 de maio de 2018

Escrevo este artigo na semana em que começa a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. Escrevo mais especificamente no dia em que no calendário litúrgico celebramos a memória de Sto. Antonio de Pádua, presbítero e doutor da Igreja, popularmente conhecido como “santo casamenteiro”, mas, na verdade, um grande pregador do Evangelho e missionário. Nas mídias segue o destaque para reportagens diretamente do País da Copa, a propaganda tenta incendiar o brasileiro para este mundial, parece haver um contexto diferente para a Seleção Brasileira de Futebol que chega a mais uma disputa deste campeonato com grandes chances de ser campeã. Todavia, no jogo da vida aqui no Brasil, como de resto no mundo todo, ainda caminhamos em meio aos nossos acertos e erros do cotidiano. Surge uma nova esperança depois do encontro dos grandes líderes – Donald Trump e o ditador norte-coreano King Jong-Um – para a verdadeira paz no mundo. O risco de uma guerra de proporções nucleares parece no momento sepultada.

 

No Brasil não se consegue acertar o preço do frete e segue a lengalenga na questão dos transportes e os aumentos nos combustíveis. Realmente, não dá para entender muito do que acontece em nosso País. Em última análise, pela minha própria vocação como padre e serviço à Igreja recorro ao universo da Fé para buscar a compreensão da realidade com fundamentos bem mais sólidos e que nos ajudem a caminhar para dias melhores nunca esquecendo o recurso a velha e batida “esperança” que, no dizer de S. Paulo, “nunca desespera”. Aliás, o cristão sabe que desde o seu Batismo está marcado pelas virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade. Neste sentido, é interessante notar como um texto de quase 3 mil anos atrás continua sendo atualíssimo e de uma força impactante. Segundo relato da criação do Universo, do Homem e da Mulher, o texto bíblico do Gênesis é uma verdadeira pérola, um ícone da literatura mundial que transcende os limites da religião judaico-cristã. Alguns breves tópicos destaco aqui, mas o texto dá margem a um verdadeiro curso não só de Teologia, mas de Antropologia e com certeza de outras ciências mais se formos perspicazes o suficiente para perceber o longo alcance da perícope bíblica. Este segundo relato traz a referência ao pecado que não é ingenuamente como pensamos a posse de uma “maçã” arrancada por Eva da árvore depois de tentada pela serpente. O texto é uma crítica à cópia que os hebreus fizeram do sistema de reinado dos povos vizinhos. No século IX a.C (a.E.C. – antes da Era comum como preferem hoje) o Povo de Israel se dividiu em dois Reinos: Sul e Norte. Neste sistema deixaram uma série de injustiças entrar em sua vida e basicamente romperam a aliança com Deus dando espaço à idolatria. A serpente que conversa com a mulher é uma referência às religiões sírio-fenícias que cultivavam o culto pagão da fertilidade (representado na união de um sacerdote com uma prostituta sagrada). Todo o jardim de delícias, Éden, é dado ao casal recém-criado, mas eles querem se apossar do que não lhes pertence: a árvore do meio do Paraíso. Quando Deus vem ao jardim não encontra as suas criaturas prediletas. Em nossa cultura gauchesca diríamos que Deus vem “tomar um chimarrão” com Adão e Eva no final da tarde. Ou na linguagem urbana diríamos que era o momento do happy hour de Deus com a Humanidade. Mas, homem e mulher estão escondidos. Deus faz a pergunta certeira: “Onde estás?” (pergunta marota aos candidatos aos cargos eletivos: estás do lado do bem, da justiça, da transparência ou da corrupção, da propina, da bandidagem?) Adão responde: “a mulher que me deste por companheira me deu da fruta e eu comi. Depois vi que estava nu e senti vergonha”. Na verdade, Adão coloca a culpa em Deus e não na mulher, porque foi Deus que a deu por companheira.

 

Enfim, estamos hoje num País dividido e tão enrascado com tantos problemas que a velha e sonhada estabilidade econômica não resolveu. Ficamos colocando a culpa sempre nos outros, ou então, como é de praxe em Deus mesmo. Achamos que tudo de ruim e de injusto vem de Deus. Ainda bem que no texto do Gênesis só sai amaldiçoada a serpente. E daí vem a expressão “proto-evangelho”, ou seja, primeiro Evangelho, por que Deus afirma que a mulher pisará com seu calcanhar a serpente. Maria será a nova Eva e Cristo o novo Adão. A serpente tomada depois na tradição cristã como expressão da fonte do mal (Satan, Satanás – adversário; diabo, diabolôs – o que divide, esparrama; caluniador) será definitivamente vencida pelo Filho de Deus, Jesus Cristo, erguido agora no madeiro da Cruz, a nova árvore da Vida. No jogo da vida Deus no seu Filho Jesus vence definitivamente todo o mal. Para nós fica a missão mais fácil: acreditar, viver o dom da Fé, da Esperança e da Caridade. E mais: com a força do Espírito Santo.